Bem que se quis…
e eu nem queria derramar outra vez,
mas quando a primeira gota cai
— devagar,
gelada,
salgada —
as outras seguem o mesmo caminho,
dramáticas,
lentas,
como se o tempo aprendesse a chorar.
Não sei o porquê.
Só sei que algo estava aqui:
uma memória,
uma dor,
um esquecimento.
E de repente virou água,
escorrendo sem pedir licença.
Pra alguém imediatista como eu,
a lentidão é um corte fino,
daqueles que não sangram na hora
mas ardem depois.
E sem aviso, o tom mudou:
ser forte, ser por acaso.
Havia mais aqui —
raiva,
fogo da alma,
a lembrança de ser forte,
forte,
forte outra vez…
até cansar.
Passei uma tarde inteira assim,
deixando sair, ao acaso,
tudo que morava em mim,
guiada pela energia dos sons,
da voz,
dos metais,
das cordas,
dos sopros —
como se a música soubesse
onde tocar
quando eu já não sabia.
Ela se jogou da janela do quinto andar
e então eu entendi:
realmente,
realmente nada é fácil de entender.
Buscar sentido em tudo
não parece ser o objetivo,
ou ao menos não me salvou do abismo.
Mais gotas.
Agora só o colo.
A saudade de um colo.
A mãe de todos
não mora em gotas salgadas?
Então transbordar talvez seja isso:
o pouco de colo que existe
até encontrá-la
novamente.





